Você usou a caneta, viu a balança descer, parou o tratamento e, alguns meses depois, o peso começou a voltar. Se isso aconteceu com você, saiba de uma coisa logo de início: não é falta de força de vontade. O reganho depois de interromper a medicação é comum, tem explicação e, na maioria das vezes, pode ser evitado com planejamento.
Neste texto, a equipe da Clínica Bhariátrica explica por que o peso tende a voltar quando a caneta é interrompida, o que os estudos mostram e o que fazer para parar o tratamento sem perder o resultado.
Por que o peso volta quando a caneta é interrompida?
As canetas usadas no tratamento da obesidade, como a tirzepatida (Mounjaro) e a semaglutida (Ozempic e Wegovy), imitam hormônios que o próprio intestino produz depois das refeições. Elas aumentam a saciedade, diminuem a fome e deixam o esvaziamento do estômago mais lento. Por isso, enquanto a medicação está em uso, comer menos fica mais fácil.
Quando o tratamento é interrompido, esse efeito vai embora em poucas semanas. A fome e a vontade de comer voltam ao nível de antes. E o corpo, que perdeu peso, passa a gastar menos energia do que gastava. Se nada mais mudou na rotina, a conta fica a favor do reganho.
Existe ainda um terceiro fator, muitas vezes esquecido: a relação com a comida. A medicação reduz a fome física, mas não resolve sozinha a fome emocional, a ansiedade ou os hábitos construídos ao longo de anos. Quando ela sai de cena, esses padrões continuam lá.
O que os estudos mostram
Os grandes estudos com essas medicações acompanharam pessoas que pararam o tratamento, e os resultados ajudam a entender o tamanho do desafio:
- No estudo SURMOUNT-4, publicado no JAMA em 2024, pessoas que usaram tirzepatida por 36 semanas e depois passaram para placebo recuperaram, em média, cerca de 14% do peso corporal no ano seguinte. Quem continuou a medicação seguiu perdendo peso no mesmo período.
- Na extensão do estudo STEP 1, com semaglutida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido um ano depois de interromper a medicação.
Esses números não significam que todo mundo vai engordar de novo, nem que a pessoa precisa usar a caneta para sempre. Eles mostram que parar sem estratégia é o que mais favorece o reganho. Nesses estudos, os participantes interromperam a medicação sem um programa estruturado de transição.
Os três pontos que mais pesam no reganho
1. Fome e saciedade
Sem a medicação, a saciedade depende de novo da alimentação. Refeições com proteína suficiente, fibras e boa distribuição ao longo do dia ajudam a manter a fome sob controle. Esse ajuste precisa começar antes de parar a caneta, e não depois.
2. Massa muscular
Perder peso não é o mesmo que perder gordura. Estudos com essas medicações mostram que uma parte importante do peso perdido pode vir de massa magra, principalmente quando não há orientação nutricional e treino de força. Menos músculo significa um metabolismo mais lento, e isso facilita o reganho. Proteína adequada e exercício resistido protegem a massa muscular durante e depois do tratamento.
3. Comportamento e emoções
Comer por ansiedade, por cansaço ou como recompensa não desaparece com a medicação. O acompanhamento psicológico ajuda a identificar esses gatilhos e a construir outras formas de lidar com eles, para que o resultado não dependa só da caneta.
Como parar a caneta sem voltar a engordar
A primeira regra é simples: não interrompa nem ajuste a medicação por conta própria. A forma de reduzir e o momento certo de parar são decisões médicas, tomadas caso a caso.
De forma geral, uma boa estratégia de saída costuma envolver:
- Planejamento com o médico sobre quando e como reduzir a dose, em vez de parar de uma vez;
- Alimentação ajustada com nutricionista, com foco em saciedade e em proteína suficiente para preservar a massa muscular;
- Treino de força regular, compatível com a sua condição física;
- Acompanhamento psicológico para lidar com a fome emocional e manter a rotina;
- Retornos periódicos depois da interrupção, para perceber cedo qualquer tendência de reganho e agir rápido.
É exatamente essa transição que costuma faltar. A medicação faz a parte mais fácil, que é perder peso. Manter exige um plano.
Já parei e engordei. E agora?
Primeiro, tire a culpa da equação. O reganho tem causas biológicas e comportamentais, e elas podem ser tratadas. O passo seguinte é uma avaliação completa para entender o que aconteceu no seu caso: como foi o tratamento, como estão a alimentação, a massa muscular, o sono e as emoções.
A partir disso, o médico define o caminho, que pode ou não incluir retomar a medicação. O importante é que, desta vez, exista um plano para depois.
Perguntas frequentes
Todo mundo que para a caneta engorda de novo?
Não. O risco de reganho é alto quando a interrupção acontece sem estratégia, mas cada pessoa responde de um jeito. Planejamento e acompanhamento fazem diferença.
Posso parar a caneta de uma vez?
Essa decisão deve ser tomada com o médico que acompanha o seu tratamento. Ele avalia o seu caso e define a melhor forma de reduzir ou interromper.
Quem já fez cirurgia bariátrica e voltou a ganhar peso pode se beneficiar?
Sim. O reganho depois da cirurgia também tem causas que podem ser investigadas e tratadas, e o acompanhamento multidisciplinar é parte importante desse cuidado.
Programa de Emagrecimento · Clínica Bhariátrica
Acompanhamento com médico, nutricionistas e psicóloga, durante o tratamento e, principalmente, depois dele.
Referências: Aronne LJ et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024. doi:10.1001/jama.2023.24945 · Wilding JPH et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes Obes Metab. 2022. doi:10.1111/dom.14725
Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Clínica Bhariátrica · Diretor técnico: Dr. René Berindoague Neto, CRM-MG 26.670.